domingo, 24 de abril de 2016

Respirar

Tento respeitar a minha franqueza
por um segundo, tento aceitar
a tristeza maior, o gosto límpido
do orvalho da manhã
o sossego, a paz, o silêncio
breve como a vida
depressa inunda-se e renego
o meu ser, a minha alma
volto a adormecer
pois só no sono mais profundo
sou quem devo ser.

quinta-feira, 31 de março de 2016

Algas

Um dia, quando o vento correr
acordado até aos teus braços
o verde será demasiado profundo
e a areia demasiado espessa...

Nem o principio de um palavra
será necessária para delinear
a densidade do teu abraço...

No ar preso devagar
emerge o teu sorriso oceânico.
Aqui, o tempo não existe
no instante dos teus dedos
o dia pleno e limpo.

Esta é a madrugada
Em que junto ao cais espero
atravessar a espuma luminosa
e livres galgaremos o rumor das algas...

quarta-feira, 23 de março de 2016

O futuro

Algum dia fui aquilo que hoje vagamente me lembro
só depois de amanhã saberei o que pensar depois da amanhã
Mas hoje não! Não posso pensar
nas mil camadas de sal que cobrem a minha pele.
Criança assustada num canto
Choramingando a morte de um pássaro qualquer
Carregando nos braços o gato Romeu
Por entre, o ar lúgubre de um quarto no topo da casa
um esconderijo, um sótão, pintando a cor-de-rosa...

Hoje não quero pensar. No salto que a vida deu
No tempo que passei sonhando, quando anos de vida?
Acordei criança e adormeci mentida
Na incerteza da dor sempre a mais triste
O desejo de reviver o passado,
As saudades do futuro, esse mito absurdo.
O amanhã não existe. Não no agora, não!
Apenas saberei isso amanhã. Essa é a certeza única.

sábado, 3 de outubro de 2015

Sou


Olha para mim,
sou pele cicatrizada
sou o grito sufocado na garganta
o corpo rasgado a alma vestida.
sou este fantasma de mim que caminha
Sou eu!
Eu, na forma mais primitiva do meu ser.
Que outra coisa poderia ser?

(tremem -me as mãos)

Olha-me, de dentro para fora
que o corpo apenas é uma carcaça...
E nada mais importa!
O tempo não é nosso
é um  intervalo
entre o real e o imaginado
e nada é concreto
porque tudo foi criado.

Olha para mim,
para o profundo e o infinito de mim.
Cada dia, sobrevivo-me.






sábado, 15 de agosto de 2015

Silêncios

Nos instantes ou momentos
em  que as palavras são vapor
os silêncios gritados
que guardo dentro de mim
são ecos infinitos que me estragulam.

Caí no vazio, perdi a consciência
quero correr numa espiral
e não olhar para atrás ao cruzar a meta
ganharemos os dois?

Vou quebrar as palavras
para que o ar possa fluir
O que há em mim? Nada,
tudo deixou de existir.
Quero a liberdade da lucidez
por entre o árvoredo
gelada em voo inerte
não voltarei, jamais!


domingo, 26 de julho de 2015

Haverá algo mais triste do que a solidão? Pergunto-me.
A vida passa e com ela leva cada pedaço da minh'alma
Onde estão os sonhos que sonhei? Perdidos, talvez.
Já não há sorrisos, não. Não há velas, nem festas, nem balões
No tempo em que eu era feliz, pensava que seria sempre assim,
Pensei que  "para sempre" o céu seria feito de algodão
e as montanhas de biscoito. No tempo onde cantavam-me os anos
como se o meu nascimento fosse algo especial, mas não é.
Não há nada de especial em mim. Apenas sou. Existo.
E como algo que existe também um dia morrerei
e ninguém se lembrará de mim.

Vigiam-me, observam-me como se fosse o ser vil,
desprezível. Apenas sou uma mulher,
acorrentada a uma falsa esperança de
que algum dia algo mudará. Algo? Mas o que? Não sei.
Tudo mantém a sua forma, o seu caminho, imutável.
Julgo não merecer ter amizades. Pois nunca as tive.
No entanto, tento sorrir. Sou uma atriz no palco que é a vida,
Sou a cicatriz profunda e mal sarada de uma despedida
Sou... sou "eu". Digo, penso ser "eu" mas o meu "eu" não entende
o porque desta desdita. Não entende porque morreu e continua vivo.
O meu "eu" um cadáver sucumbido às portas da minh'alma
Nunca logrará resolver o mistério da sua existência.