segunda-feira, 26 de novembro de 2007

Engano


Este prazer de me enganar
de me iludir
de olhar para o mundo a sorrir
faria dó a toda a gente
eu sei que quero mais
muito mais, longinquamente...
para além destas cortinas pretas de cetim
que escondem os vidros estilhaçados
que guardo dentro de mim

Eu sou...

teimosa, convicta
coluna macissa de altivez
nao abro mão de nada
nao consigo ficar calada
nem sei dizer adeus
perpicaz, persistente
desejo louco e enlouquente
de vencer o jogo da vida
as cartas que domino
apenas as lanço duma vez...

Beijo

beijo-te...
no início do nada
como se depois do abraço
o céu fosse mar
e o mar fosse céu
e após o vínculo
das nossas bocas
os sentimentos
não passassem de fúrias
volteando loucas
na foz d' alma...

O amanhecer da inocencia

Abro os olhos de manhã
curvo-me sobre o tempo
sobre o cansaço morno
e penso em teus olhos...
ah! se ao menos estivesses aqui
minhas pálpebras evitam
olhar para o lado
e desfazer este sonho, imaculado
de em teus olhos
poder ver o brilho matinal
a tristeza, a melancolia, a pena, a lassidão
que me invade
quando olho para a outra margem
e nao te vejo, olho doce paixao...
onde está o teu corpo
o teu rosto de anjo adormecido?
e volto a debruçar-me
sobre o sono
apressada para te rever
oh! prazer de imaginar
de em meus sonhos poder te amar

Aqui!


Aqui me tens, meu bem, sou tua
segura nesta ambição de esperança
deslumbrada com a palidez da lua
fluido no crivo da lembrança.

Aqui me tens, à noite, desviando o lençol,
que é ancora de tempestade
desejosa de estribar o sol,
perdido algures nesta cidade.

Aqui me tens, meramente, a recordar,
aquele azul bravio, sem dono
a tua mão curvada, sobre o meu sonhar
hoje apenas folhas deixadas ao abandono...

Aqui me tens, caída, neste chão,
por onde passa tanta gente
e ante o silêncio da solidão,
meditando-ó como te amei-inutilmente.

Primavera

Nesta noite de primavera
a lua escorre como prata líquida
sobre nossos voltos calados
naquele instante que os unia.

segunda-feira, 19 de novembro de 2007

Eternidade


Tudo pode ser traido
tudo pode ser abandonado
menos as verdadeiras memórias
porque há coisas, locais, histórias
que não fogem, que não voam
que não se esbatem
na imensidão dos pensamentos...

Bárbara

Bárbara a dos olhos de vidente
bárbara de Camões
coroada de desdém
cativa de coraçoes
prisioneira do além
bárbara só uma...
aquela que me aprisiona
com correntes de loucura...
bárbara, teu nome é ternura
ancorada numa tempestade
doce delírio, alucinaçao
semeada em cada rua
neste circulo de lua
sombra fatal e apetecida
brilho que seduz
bárbara de luz...
não há dúvida que de ti não fujo
que te procuro...
por entre os lençois e as histórias
doces vis memórias
esquinas de frutos e azuis...

Bárbara imaginação
de corais e dunas
sal de emoção
sem língua, cor ou nação...
bárbara só uma
selvagem nao é de ninguém
e é de toda a gente
bárbara, raiz de vida
bem conhecida
que me absorve, timidamente
bárbara arfada de quem quer
entranhas de mulher
de essência tão leve, tão solta
bárbara a prisioneira
o gume, o lume, a lâmina, o segredo
que nos agrilhoa
ó bárbara teu nome é perda e ganho
é mistério soterrado
num íntimo desejo suspirado
bárbara a dos olhos vorazes
bárbara de Manuel Alegre
e minha também
prisoneira celeste
cativa do além...

sábado, 17 de novembro de 2007

Descoberta

Conheci-te um dia destes
perto daquela misteriosa esquina
entre o inferno e o céu
algo me veio à memória
qualquer fragmento gostativo
apaladou aquele momento
seria talvez o vento
a deslizar a rua...

Palavras


As palavras não gravam
e não apagam as memórias
são apenas testemunhas da consciência
fragmentos duma história
a procura da perfeição!

sábado, 3 de novembro de 2007

Mar

Quero ver os dias a passar
sentir na curva do teu olhar
a profundidade do oceano
acordar com a boca rumorosa
num desejo de conchas e corais
e sentir na brisa ou nas areias
o pulsar das tuas veias
quero ver a vida acontecer
o corpo flutuando sem destino
manchas de cor que correm para o infinito
onde o sol morre e é maior, nosso amor...

Livre

Acordei.
Sou manhã de abril.
Estendi os braços ao vento,
senti cada pulsar do pensamento
livre tão livre, finalmente...

Lobo

Doi-me esta claridade,
que corre lenta pelo corpo.

Doi-me saber a verdade,
tenho em mim um lobo
que chora ao luar,
o rumor do tempo frio!