terça-feira, 30 de dezembro de 2008

a noite era tanta


A noite. Tenho medo do tempo que parte ao chegar
não consigo dormir. A morte é a mão que embala
deitada sobre a cama. a alma repousa
cru e nua. não imaginas de que cor é
a fantasia prolongada. o outro lado da lua
onde mora a escuridão. por entre as paredes
que ressuscitam. o céu era triste.
os ramos mais altos não alcançavam
a luz dos olhos que brilhavam
lembraste?

A noite. O tempo morno junto ao mar do norte
mãos dadas sobre o peito. Num leve sombrio jeito
de cabelos carmesim deixados ao abandono
por entre os dedos. Segredos da tua pele branca
na minha boca a miséria obscura de quem não
tem controlo sobre si
lembraste?

A noite era tanta. O vento forte
Na fúria de ser livre. O sonho de te ter em mim.

terça-feira, 23 de dezembro de 2008


A terra transpirante
o musgo ofegante. tuas pernas descaídas
por entre a erva daninha
eras um animal insaciavel
eras um ser uivante
sempre a procura de mais

Sugavas-me a alma
até não restar nada
por entre a selva dos sentimentos
tremiam-me as mãos.na ânsia de as apertar

Faltava o ar. não haviam montes
apenas o eco surdo dos arvoredos
por entre a tua carne branca adormecida
no lençol do tempo

No jardim proibido. cadáveres perdidos
folhas deixadas ao abandono
eramos prisioneiros dum momento. eterno no seu fim
como é bonito o osso nu e cru
aquilo que restou do teu sorriso. em mim

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Palhaço assassino


O sol estava negro, expectante
a lua não existia. morreu
vestido de luto, triunfante
o teu vulto carnavalesco apareceu...

O gume da faca estava quente
em tua mão elouquente. ardeu
meus olhos em pasmo e espanto
meus olhos vazios. amargo pranto
a lua morreu...

Teu cérebro moroso ou esfuziante
não consegue chegar a clarividência
não consegue perceber a enlouquencia
de minha alma viva. fuzilante

Como consegues erguer
a tua coluna animalesca
neste circulo de misérias que alimentas
chamem os outros palhaços
criaturas bizarras, teatrais
para que vejam. tu, ser desgraçado
a ser cruelmente esmagado
por minha boca ensanguenta
minh'alma sofrida. acabada
minha mente crua e nua
traça o teu destino, num leve adeus
como ferida aberta, fulminante
como uma criatura assassina
dentes em lava, onde jorra sangue
sedento de vida...

Chamem os palhaços lamechas
que preenchem o palco. rumitando
barbaridas. piadas patéticas enfastiantes
para que te vejam caido por terra
para que vejam o folgo final desta era
em que eras tu o palhaço supremo.

sábado, 13 de dezembro de 2008

Desilusão

A desilusão não tem cor. Não!
Não tem sabor
é uma neblina que trespassa
feito lança e mata...

aquela doce esperança
por entre uma nevoa que nos cega
que mancha o luar
e rasteja vaporosamente.

o medo de sentir
o medo de perder
aquilo que nunca fui
e que um dia serei

O medo...
acaba com o calor da tua mão
sem cessar a desilusao
arde...no peito, queima-me a pele

Neste instante que é a vida
tudo se transforma, folhas de Outono
á deriva no cemitério da minh'alma

Tudo era para ser perfeito
era...
uma leve quimera
meu amor...o que foi que aconteceu
o mundo ja não é meu. não.
ficou mudo,num leve adeus

domingo, 16 de novembro de 2008

Passado desmenbrado


Tudo parece-me transcendental
apática, perdida
sem cor a vida, é esfinge cadáverica
movendo esferas, numa valsa teatral

Totalmete imóvel, como um pilar de sal
minha boca permanece
solidificada pela dor dum abandono.

Pés caídos, desmembrados
enquanto ecos de assombro
povoam-me o espírito!

Diz-me que abriras os olhos,
diante de ti a miséria a fome de cada dia.
Já não sinto os cortes
nem as fracturas expostar a dernar
o sangue do sangue dos olhos
que olham nos teus sem nome.

Nas cadeiras bandas, nas esquinas
por entre o piso molhado.
As gotas da fobia
cerradas neste quarto
onde tempo passa sem pressa de partir ao chegar
sem vontade de esquecer o teu rosto
aquilo que faz a lua sonhar.





terça-feira, 11 de novembro de 2008

Lince




Teus olhos de lince
 cámelias meladas ao sol
querem me devorar em meiguice
por debaixo das vertebras dum lençol

Na polpa encarnada da tua boca
aflora um mundo instintivo e animal
e na curvatura do teu sorriso
a luxuria canibal. dentes em lava, num desatino
beijo num folgo brutal
sem pressa de partir ao chegar

Sinto o gelo quente do teu olhar
perdido em planicies e planicies de silêncio
sinto o calor da febre a bafegar
na longitude do teu pescoço
como um cálice envenenado
que me consume até ao osso

E nos batuques do meu peito
teus olhos aguçados e felinos
presos em cada gesto. cada expressão
na fluidez da minha mão. incerta dum destino.

É hoje, talvez, o último dia que vejo
o luar preso na raiz dos pensamentos
cabelos grisalhos que traçam linhas de linhas
água e sal, pescador de momentos

Vejo na suavidade da tua pele
brotar a cor exacta do teu nome,
do teu jeito de andar só pelos caminhos
mastigando emoções. fumado ilusões
rasgando sorrisos...

segunda-feira, 3 de novembro de 2008


No algodão doce daquela tarde
a tua mão derretia
açúcar cristalizado. tua boca na minha

Havia nuvens que flutuavam
em teus ombros horizontes
tal e qual um pássaro planavam
em meus olhos carnais
senti a loucura,
a despir o teu corpo
a tomar a forma dum bafo quente
dum cigarro aceso
senti a loucura a engolir o pensamento

Como dizer o silêncio
do teu peito contra o meu
os gestos que brotavam da foz da alma
alma que não cabia em mim
e que em ti não restava

O vulto do teu rosto diluía-se
nas gotas de chuva que escorriam
do para brisas do carro que corria
sem pressa de chegar

Não havia luar, apenas nós
e os lampiões que não podiam esconder
o desejo de te ter.

Nas paredes do vento ficou
aquele momento. sobre grande neblina
nem tudo o que veio chegou por acaso
na penumbra dos cabelo enrolados
mãos tombadas sobre o céu
lábios que suspiram um adeus...

domingo, 26 de outubro de 2008


o corpo deitado ao acaso
debaixo da clarabóia do pensamento
o céu cinzento imóvel
congelava a boca do tempo
monstros de cimento
abatiam-se sobre mim
como mãos que esmagam flores
dentes em lava rasgando
o algodão doce. a tua memória

há questões que não valem a pena
as horas debruçadas
em respostas vagas que se amontoam
em vãos de escadas

não há voz, nem registo,
no último som da melodia incerta
dos prédios que caem
sobre as nossas cabeças

notasse como expressão. um grito
que estrabaça das muralhas obscuras. solidão
notasse a testa franzida
os lábios gretados e poeirentos. trémulas mãos
perdidas no esquecimento. ruelas duma sensação

cada regresso tardio é uma fuga aguda
embriagues nocturna, raio de chuva
carne da minha timidez

agora sangram os portoes de ferro
que se abrem até ao céu
paredes de cal e miséria
deste quarto, doce quimera
arrumo a bagagem. penso nos teus olhos nos meus
sigo viagem...num último adeus...

sexta-feira, 24 de outubro de 2008


vegeto. nesta cadeira morbida preta
nesta sala de enfermidade extrema
vegeto. olhando paredes que caem
sobre os dias que se abatem
nas sombras perdidas que contemplo

no castelo assombrado da minha fantasia
sou restos daquilo que foi certo dia
impaciente solta-se o vento
na espessura sombria. os meus cabelos
nas promessas presas. olhos de cristal

esvoaçam a rir.a bruma do desalento
mistura-se o sal. espuma dum momento
enquanto relembro. a tua boca na minha
num silencio obtuso. em labririntos de cor
o tempo dos desejos cessou
em teu olhar penetrante.de castigo
o mundo finou.

vegeto. neste espaço bolorento
gemidos dum soalho antigo.
livros empilhados na jaula.os sentimentos
relembro num tic-tac infernal. lento...lento...
o tempo ilusão dum destino
o tempo um momento
poeta cuja a alma pensa e sente
lânguida e sem gula. a procura da vida
sem pressa de a viver. perdidamente

lancei minha alma num desatino
cruzei braços. esperei. boca fixa no horizonte
numa guerra em que lutei
e onde não pode vencer a sede
louca... louca... de te ter...

domingo, 19 de outubro de 2008


Corro pelas ruas desta cidade
meço degraus. trepo muralhas
não encontro nada. a raíz do passo
caminha na raíz da vida
passo a passo,mil metros quadrados
exposto ao desalento. mãos cravadas como farpas
por entre fios de cabelos. o vento

ouiço-te a dizer adeus
essa palavra que fez da noite madrugada
não sei de que cor é a tua boca
lembro-me da língua subitamente solta
pelas ruas. pelos becos.
como uma onda rebentando de mistérios
em teus olhos ficticios. animais.

Vegeto pelos escrombos
aqui não há viv'alma
são becos decadentes. extermínio
onde a carne fez-se verso
um verso livre. sem palavras. nem sentido
debaixos das pedras havia sorrisos
havia esperança. em meus olhos de criança
em teu rosto de anjo adormecido.
já não há.

E o silêncio é tudo o que resta
para quem nada têm.

domingo, 12 de outubro de 2008


"quem dorme à noite comigo"
é minha dor, o meu castigo!

O medo perfura-me os instestinos
mora comigo,mas só a ansiedade
embala-me num balanço de tristeza.

"quem dorme à noite comigo"
na podridão dum silêncio que fala
é minha expectante alma.

Num tic-tac infernal, num desatino
o tempo da vida preso na minha mão
o tempo da carne, um destino.

" Quem dorme à noite comigo"
o meu amaldiçoado segredo.

Junto do caixão
emudece-me o peito.
A solidão
grita tentando salvar-me
dos vermes que brotam do chão
dos lírios que crescem na margem
dum sono ligeiro junto ao coração.

" Quem dorme à noite comigo"
é minha tristeza, meu desalinho.

Busco o folgo primeiro
que jorra no rio da tentação
querendo salvar-me desta morte anunciada
deste meu corpo, valendo nada
deste meu eu preso em mim

" Quem dorme à noite comigo"
é meu desassossego, meu desalinho.

Hoje digo, quem dorme a noite comigo
é o medo aninhado em meu ventre pequenino
é o medo, de não estares comigo.

Numa amargura que fala
e cedo me afaga
tuas palavras de ternura e carinho.

terça-feira, 7 de outubro de 2008


Um amor impossível, é sempre um amor impossível, por mais formas que assuma, a verdade será sempre só uma....
Os cavalos não olham para o céu, nem sentem as nuvens, nem sabem o sabor do ar. As gaivotas nunca deixaram de voar. Cada ser é constituído por si próprio, pela sua natureza.
Devia saber que esta vontade de ser tua, seria condenada pelo brilho da lua, seria apagada pela a certeza indubitável, dum amor impossível. Tu és um cavalo bravo, um ser alado, que galga os montes num desatino. Eu sou leve gaivota planando a encosta acidentada por entre o ar azul tenebroso, tentando talvez sobreviver ao tempo chuvoso, aos relâmpagos de Zeus.
Tu não podes ganhar asas e tentar voar mais alto, como eu, meu amor. Nem eu posso, caminhar sem ter horizonte, por penhascos negros e agrestes planícies .. somos de diferentes matrizes. Somos habitantes da mesma esfera. Somos infelizes.
Meu cavalo negro,semeador de morte. Não sei qual o teu nome, nem preciso de te chamar...consigo do alto avistar teu dorso selvagem e delinquente  Talvez isso seja suficiente, só tenho pena que tu caminhes tão cegamente sem nunca o céu olhar.

Jogo


Meu choro de gaivota perdida
bate no vidro da janela
esvai-se por entre
as esquinas desta cidade
perde-se nas ruelas
como o fumo dum cigarro esquecido.

Minha boca seca, dá de beber a dor
o mundo num segundo...

A chuva morre
na curvatura dos meus ombros
alongando a dor,
sob fogo cruzando, lua morta
ou sol distante
vejo-te, sem luz para olhar
abrem-se lembranças, cortinas dum destino
enchem-se de ar, num desatino
as flores murcharam de repente
em meu olhar... enlouquente
rios sem fonte, brilham p'ra ti
E por penhascos negros
desejos vãos, duma boca de mel e cetim
caminham secretos até mim.

Acontece, que neste jogo de sorte e azar
o tempo não volta atrás
o brilho amaldiçoado da lua
levou-te... cavalo de sombra
galgando planicies perdidas
em noites de versos e sons
duma grande sinfonia.

Pelo horizonte de boca liberta
galgaste por entre a areia descoberta
de minh'alma exilada, neste convento de solidão
de minh'alma presa, a uma escrava desilusão
e nunca mais sobe de ti...

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Negra


Eras negra cativa
espaço de deleito e pecado
tua pele santa e tentadora, de mulher.
teu corpo estilhaçado
num colchão de palha tombado
pronto a satisfazer.

Tinhas os olhos cerrados
esses diamantes raros,
nunca mais avistaram a luz.
Tinhas a alma cadavérica,
gritando por piedade
enquanto o pensamento voava
tal e qual uma borboleta
junto ao rio pousava
na tua mão de mãe, de irmã,
de filha, de neta de alguém,
 na tua mão de criança.

Escorriam-te dos olhos as gotas da fobia
suores frios e trémulos, apoderaram-se de ti
tinhas um crucifixo pendente do peito
a boca manchada de sal e fel
enquanto gotas de sangue caiam
das tuas mãos apertadas
da tua boca cerrada
do teu útero de mulher

Vieram do nada, de terras malditas
aqueles seres uivantes, sedentes de desejo
aqueles seres rastejantes, arfando imundície.
esfregando a pele sebosa e dita cristã
roçando testículos cheiro a escremento
ejaculando vermes de desalento
em teu corpo pequenino, em teu corpo indefeso
salivavam nas tuas ancas que nem cães
agarrados a um osso...
puxavam-te os cabelos, arranhavam-te os braços
pendestes no chão...

Teu seio amoroso, rasgado, dentes em lava
teu seio virgem, despedaçado...
olhos semi-cerrados, espumantes de prazer
olhos esbugalhados vertendo delirios
olhos verde água, olhos dum branco...cheio de tesão
olhos dum branco sem escrupulos, nem coração

Sentiste cada movimento, em teu ventre...
cada brutalidade viril dum macho nojento
tinhas as pernas bambas descaidas
tinhas os braços tombados, ja sem vida
morreste antes da navalha te degolar
e o sangue quente jorrar
do teu pescoço de gazela...
morreste... e ninguém estava para velar
a tua morte... ninguém quis saber o teu nome
ninguém sabia quem tu eras...



.

segunda-feira, 29 de setembro de 2008




Trago no fado desta noite
a curvatura dos teus ombros, intemporais
perdi-me em terrenos de luz e sal
perdi-me no infinito segundo
da tua mão na minha.
Nuvens, nao havia,
apenas uma noite profunda
sem estrelas nem lua
minha pele derretida
como cera em tuas mãos
minha alma nua
por um momento, meu
olhar apagado indulgente
tecendo melancolia...
trago no pensamento esta noite
a voz muda inocente
um cheiro inusitado
de conchas e mar
perdi-me, talvez, nem sei
no verde oceanico do teu olhar
a luz que derramava dos candeeiros
preenchia os vazios da espuma solta
ao longe o som dum búzio escondido
voava tal como o vento
por entre nossas bocas murmurantes
voava por entre as ruas que a cidade tem
gentileza dos meus cabelos
trago na saudade deste poema
a louca fantasia
de ser alma da tua alma, até ser dia
o amor passado que a boca sentiu e calou
já eu os vivi, o tempo selou
lembranças que me trespassam como punhais
lembranças que me fazem sorrir
das cinzas negras até ao pó
são só lembranças... apenas...lembranças...
onde so faltou eu, senhora de mim.


quarta-feira, 24 de setembro de 2008


Tenho um cansaço imenso
das coisas que não são minhas
e aquelas que me pertencem
tenho-as cansadas, a deriva
talvez não seja cansaço
apenas uma especie de desilusão
que se entranha por debaixo da pele
que mastiga os dias que passam
às avessas, passam, depois caem no abismo
das palavras que ficam por dizer
ou daquelas que não deviam ter sido ditas
estou tão cansada de te ver, de ser mendiga
do teu mal querer...
cansada, dum cansaço maior e vertiginoso
cansada como um touro enraivecido
que cai por terra vencido
estou cansada do mundo
e do que ele contém,
múltiplas formas distintas
de cópias identicamente estúpidas
de tédio rastejante de tédio repugnante
cansada...



( este poema bebe do cansaço de Álvaro de Campos)

domingo, 21 de setembro de 2008

buzios e corais

naquela praia pacifica e nua
vi astros diluidos na lua
serenata de conchas vaporosas
vi teu rosto de anjo adormecido
por entre as dunas
da minha carne branca exposta

naquela noite de bruma
teu olhar era verde, azul e espuma
era frágil encantamento
ah! se algum dia o destino
souber nos falar
das ondas que fazem o mar
esculpidas nos teus cabelos
se algum dia souber desfazer
a candura daquele anoitecer
nuvens roçando como novelos

e por entre a sombra crua
dum beijo morno, esquecido
meu olhar diamante, perdido
nas encostas do teu dorso
nas entrenhas dum pesadelo
animal selvagem, monstruoso

a noite era fria até gelar
era volúpia obscura
era...
gaivotas fugindo, horizonte
de teus ombros intemporais
branços abertos, musica, vento
sussuros e medos verticais
povoando o pensamento
era...
noite de abandono
boca de sal e fel
tattuada, ferro e fogo na pele
cão uivando sem dono
numa praia pacifica e nua
vi meus sonhos pesados como rochas
vi granadas de miséria
réstias duma vida sobreposta
às pegadas da tua indeferença
a incerteza da tua presença
ou simplesmente ausência duma resposta...

sexta-feira, 19 de setembro de 2008


Come o meu medo,
vil segredo da tua delinquência.
Come a massa viscosa que me cobre
carcaça bolorenta.

Bóiam farrapos da vida,
que uma vez fui...

Vejo-te diante de mim
com o riso e soluço de chacal.
Vejo-te a mastigar
o coração atado junto ao peito.
Não tem cor nem forma
este mal que me escarnece e degrada
de ser carne da tua carne
fortuna desgraçada
de ser escrava cativa
da tua eloquência
alma da tua alma vampiresa.

E depois do sol se pôr,
os meus pensamentos são um exercito
de abutres que rodopiam
na cavidade torácica da tua existência.

Garras em lava que a vítima vigia
garras em lava agarrando a inerte vida.
Devastação secreta do teu bico afiado
como uma navalha talhando
a carne branca e macia.

Sugas-me até aos ossos,
sou apenas pele morta.
Os olhos ja sem viço
num silêncio de pasmo
nesta luta ingrata cada tentativa falhada
atormenta minha mente exposta.

Os vermes que brotam e crescem invisíveis
que comem o meu medo,
comem o sofrimento
de nada restar de mim,
de nada restar do que fui
nem do que um dia seremos...

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

Gueixa descarnada



Havia um cemitério de pianos
que tocavam só para ti
na fatalidade desta existência
como o vento nas areias

Cada acorde atemorizava
teus olhos espectros de água
tua boca de gueixa.
tinhas os membros pendentes
como estalactites
nas mãos o nó cego, apertado
dum vil obscuro passado...

Quebrou-se o gelo das colinas,
ímpia, cruel e culpada,
tua pele ensanguentada
luz trémula de lamparina.

A noite corria vagarosa
agitados teus cabelos perto do abismo.
teu vestido rubro e poeirento,
que rodava fora da vista,
tacteou... por entre o arvoredo
as rochas e o escremento
tacteou... por entre a vida.

Tinhas feridas expostas, mas não sentias
os dedos eram carne pisada, e tu morrias
no fim da colina um cheiro
a incenso ou velas de altar
falsos choros de clemencias
por entre flores putrefatas
rezas de beatas, cadeiras bambas e bolorentas

E nisto...
um vazio. o nada
na polpa da boca descarnada
no vestido branco de seda...

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

Navalha


Havia mosquitos infernais
em tuas olheiras
lágrimas teatrais
rompiam as veias
quero lá saber que morras
por mim podes morrer
dava tudo para te ver sofrer

no calor da navalha
o sangue escorre
uivam cães nas colinas
e uma estúpida neblina tenta me esconder
mas eu estou aqui. Não me ves?
sinto os teus pés sangretos
os lábios rasgados e poeirentos
sinto-te a esvanecer
estou aqui para gravar
o teu nome junto à minha lápide

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

Tu

Naquela tarde. lembro-me
como gentil dormias por entre o arvoredo
minha mão sobre o teu peito
cabelos desalinhados. janela.vento.

No ar o cheiro agreste do sol
montanhas e montanhas
se abatiam sobre nós

E o tempo corria vagaroso
em teus braços de alecrim...

livre

Para onde vou nada existe
sou livre para onde vou
como um pássaro. livre
mas se me ponho a pensar
por mais de um momento
aflora em mim o cruel sentimento
de ser apenas triste

Terei esquecido. talvez
de mim no cemitério da vida

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

Mundo

Sobre as campas dos soldados mortos
o musgo trepa. solidão
um turbilhão de espectros arrastam-se
por entre as manchas esfumaçadas
que cobrem os ciprestes
ouvem-se gritos. ricochetes de balas
ouvem-se gemidos. gumes de facas

O século é grande. tanto quanto a miséria
o homem triunfante. preso nos labirintos da matéria
caí o suor dos esfomeados
caí o sangue dos leprosos
caí por terra os condenados

caí...caí...caí!

Por entre bombardeamentos
uma voz, um soluço
o desejo de querer sempre mais
caí corpo infiel
caí pedaços de pele
caí regime bolorento
caí alma ao sabor do vento

E sobre a macabra mesa. jantar divino
a Tua cabeça...
E sobre o colchão inerte. corpo enrugado
o espírito pobre amaldiçoado
nos seios virgens duma promessa
em nome duma fé
em nome dum deus qualquer
em nome do progresso
em meu, em teu nome
a devastaçao
aqui, além, mais longe.


Minhas veias sussurantes
arcadas inquietas, presas numa mão...
sei que morri dentro de meu peito
sinto-me. inerte entre os vivos
na superficie da esfera
onde bichos se confudem
com os Filhos eleitos.




segunda-feira, 8 de setembro de 2008

Doentio


Tenho a impressão, de que ainda me tocas
com o fluxo intemporal dos teus dedos.
O vinho que adormece os cabelos
fez do teu templo minha boca.

Num silêncio a preto e branco
tinhas o pescoço enforcado nas minhas pernas
por entre paredes cansadas
o bafejar da chuva que não seca
o contorno árduo e subtil
dos teus ombros ancorados na almofada

Sinto-te entranhado em mim
meu ventre cru e nu
como um crepúsculo. escapa do teu olhar
ouiço uma voz arrastada e sussurante
por entre o crivo das horas vagas
os pensamentos ficam perdidos
navio em mar de bruma
navio em chamas

Minha alegria culposa,
irmã duma orgia estranha
dobra-se no colchão onde ficou a saudade
o tormento de tanta espera
no teu rosto adormecido
a solidão. o arrependimento.

Tenho a impressão de que ainda me tocas
não podendo evitar as nódoas negras
as palavras de desdém, a cinza dos momentos
o cheiro da cerveja, do limão e da erva seca
não houve pássaros nem flores
em teus braços:
não houve curvas, nem papel, nem versos
apenas a minha pele com vestigios duma raiva
a minha pele com queimaduras de cigarros
a minha boca espumante de medo
o meu corpo jogando sem alento
o meu ser em derradeiro sofrimento...

As memórias não as posso apagar
não as quero esquecer
sentam-se comigo a mesa
veem-me a beber o cálice envenado do teu amor.

quinta-feira, 4 de setembro de 2008




Arrasto esta carcassa desfigurada
circulo pelo Funchal. cidade morta
com os ossos que nunca vi. carne solitária
o sangue ainda corre. numa dor surda
um bando de abutres sobrevoava
meus olhos reluzentes
em cada esquina uma mensagem tua
em cada prédio a sombra da tua voz
em cada rua o cheiro do teu corpo
persegue-me em camara lenta....

Alguém uiva no cimo da escada
cada degrau me derruba
no corrimão desta estrada
surge ao longe um olhar
cão da morte. dentes em lava
Arrasto meus pés sangrentos
cabelos ao tumulto do vento
lábios gretados e poeirentos
vejo-te nos lampiões destas ruelas
embriagado de luz
vejo-te debruçado nas janelas
jogando facas
vejo-te como uma traça
girando em torno duma lâmpada
penso que és sol. vida eterna...

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

Sóror saudade

Irmã sóror saudade
leva-me para ti
nesta noite voluptuosa
de desdém e fome.
Perdida por entre planicies
de cinza e cal
teus olhos murmurantes
postos em mim
como se avistassem um estranho
entre os abrolhos
duma existência vaporosa.

Irma sóror saudade
eis me moribunda
na amplitude desta floresta
eis me vagabunda
meu dorso escamoso epilético
por entre os cavalos negros de minh'alma.

Irmã sóror saudade
parece que sofro do meu mal
um mal onde habita
o meu corpo rasgado
em pleno delito,
leves lençois de gelo
em comunhão com os céus!

Como a Noite, Irmã,é luar
como o luar são cabelos ao vento
e os sorrisos cadavéricos o meu alento

Ó bendita Irmã de minh'alma
abençoa-me agora e para sempre
pois só tu me conheces intimamente
pois já nem eu sei quem sou
nem onde me perdi!

terça-feira, 2 de setembro de 2008

Fingir

Finjo que estou bem
o corpo ensaguentado. vestido a rigor
manchas amareladas. feridas decompostas
berros descontrolados . por entre sorrisos

finjo que estou bem
olhas-me mas não sabes
por entre as ruelas. uma cidade
ninguém sabe. as mãos trémulas e friorentas
as pessoas são tão desprezíveis
hipócritas e sínicas
falam mas não imaginam
sou vidro. não veem
estilhaços de mim...

olhas-me e não sabes
dentes em lavas. num desatino
finjo que estou bem
o corpo embrabece
a boca emudece
fica a necessidade de saber
será hoje o fim...

domingo, 31 de agosto de 2008

Recantos


Recantos de minha mente,
repositórios de doses viciantes
de lembranças fulminantes
amarfanhado de corpos e suores...

Vejo na sombra do vento
os farrapos poeirentos da tua memória
uma dor singular e ávida de ti
escorre-me por entre mãos atadas...
e a voz inaudível...do teu silêncio
raspa com um canivete
as tábuas do meu caixão...

Neste convento de trevas
apagam-se as velas
que queimaram até ao fim.
os olhos fecham-se em trêmula agonia
por ente a obscuridade
das seivas que se mesclam
no puro prazer de violar.

Tua pele branca. polpa de framboesa
firmamento e lua. estranha beleza
repleta de falsos pudores. cada sorriso
preso no espartilho. o teu seio amoroso...

Mas tudo isto é ilusório. pura fabricação
aqui não existem fronteiras
sou ser da noite, em desalinho e aflito
feito apenas para sugar
a medula ossea do teu olhar...

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

Meia-noite. a lua pujante me avista
o relógio marca com hipocrisia
meia-noite de qualquer dia
sentada á beira desta estrada
como um parasita
contra a luz que me alumia
contra o ser que me habita

Beijo a Matéria triunfante
por entre a bruxuleanta sentença
de ser filha do Pecado mais repugnante
duma Eva sedutora, provocante
e dum Adão feito Besta

Tenho na boca o trago a sangue
da ferida que procuro e não acho
meus olhos exaustos expectantes
vislumbram a glória negra
duma cidade desertica
fluxo universal da cratéra

Ergo-me do buraco de Dante
caminho a pé. sem destino
galgando ao sabor do vento
como um demónio que caí repentino
nas portas dum convento
a minha alma morta
na volúpia da noite
ouve o jorro soluçante
dum rasgo de luz
que levemente escorre
à beira dum percepício


Meu corpo cinzelado
no mámore ou no ébano
segue a miragem. trilhos secretos
acesa a chama
protejo-a com a cova da mão
acesa a chama
da servidão
Dai-me Senhor da escuridão
o descanço eterno
entre os resplendores da luz perpétua
ja dormo na morte
o interminável sono
ilusão duma vida eterna...

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

Violeta de Parma




Sou um vegeto das ruínas
o meu ser
sente o mastigar de cada hora
por entre o céu descoberto
o anoitecer

Vermes rastejam
fogem de mim com asco
bebo o absinto
das lápides murmurantes
dos ciprestes que tornam em silêncio
o lirismo impuro
os sentimentos tépidos
de cada segundo...

Sou filha dum tédio, duma dor qualquer
por entre sonhos horrivelmente histéricos
jardins fantasmagóricos
e obsessões...

Os resquícios de minh'alma
evaporam como fumaça
e nos meus lábios aflora a tísica
roxa e inefável melancolia...

Sou transparência de morte, magreza hirta.
por entre a palidez clorótica,
desta noite de afronta e solidão
e nos conventos abandonados de minh'alma
sou brilho cru, agudo e febril
sugando os cansaços mornos de uma vida
leve bater de asas de cotovia...

Sobre o vazio, sobre o nada
sou desdenhosa ilusão da eternidade
minha boca acidentada
por entre os dedos esticados
e manchas de realidade.

Sou corpo cadavérico
deixado ao acaso
Sou gravação vaporosa
violeta de Parma
flor dolente e venenosa
Já sinto emurchecer na alma
as pétalas de um sonho...

já eu não sou! ...na cova escura...
já eu não sou!...defunta




( Este poema bebe das palavras de José Duro, mas especificamente do seu poema "Doente", uma longa confissão de amargura e desespero de um jovem a beira da morte.)

Esses olhos ofuscantes
onde poisam borboletas
lacrimosas superficies
de estranha beleza .

Longiquos silêncios
se despredem
no ardume da pele
todo o tempo do mundo .
aos olhos de quem ama
parece tão breve, tão fugaz...
para veres a paixão
que em mim habita
fecha os olhos murmurantes
na obscuridade da cada momento
fecha os olhos em segredo
sente os dedos remexendo
na terra da tua cova
sente as tábuas do caixão
ou as soturnas precês
que se esvaem como fumuça
da minha mão...

terça-feira, 19 de agosto de 2008

Quero-te


Nem te despediste de mim
nem me disseste sim ou não
mastigo cada silêncio da tua indeferença
sinto o palpitar do coração
atrás da porta, um murmurar
persegues-me em câmara lenta
em cada esquina o teu olhar
e a tensão aumenta...
neste espaço vazio e esfumaçado
perdi-me nos trilhos da minha alma
numa alucinação cega e descompassada
segurei os teus dedos, feitos de nada
fixei os teus olhos, pontos no escuro
deixei-me sufocar pela ãnsia do meu querer
lancei-me no obscuro...
deixei-me morrer...

Anjo Negro


Quando me olhavas voraz
havia um cemitério de crianças
no teu olhar!
Uma tristeza tão profunda
brotava na foz d'alma
vi, nos campos tétricos
das tuas alucinações
cada hora preenchida
por lírios palpitantes
aguarelas que davam-me
a emoção do olhar e do sentir
tinhas uma espécie de dever
o dever de sonhar
de sonhar sempre, tinhas esse dever
de nunca acordar...

Mas por detrás
da máscara que usavas
um rosto inerte ou expectante
conspirava...

manchas de sangue
cobriam-te os pés

por entre lembranças ocas
momentos cristalizados
no filamento das nossas bocas

pensei que eras poema
linha horizontal
deslizando na curvatura
dos lençois amontoados
cabelos tombados
flutuante lua
mas apenas povoaste
as entranhas do meu imaginário
sugando-me a carne
numa procura hedonística
de saciedade
triunfo da tua vaidade

segunda-feira, 18 de agosto de 2008


em busca dum beijo, tacteei
aquele circulo de árvores
o brando respirar da natureza

desenhou-se um sorriso
na curvatura do teu olhar
um suspiro...cai
por entre os ramos
fio de luz... devagar

ficou o abraço preso
palavras esvoançando
ficou o cheiro molhado das encostas
o leve roçar dos teus dedos
no interior dos meus ombros
e no meio dum silêncio imenso
ficou o esboço da minha sombra
ternura secreta açucarada
da tua boca

domingo, 17 de agosto de 2008


porque choram os meu olhos,
diz-me amor, devagar...
porque tenho medo de acordar
porque vivo de ilusão
porque me entrego à paixão
porque vibro assim, com o luar!

que levaram de mim
com que palavras me enganaram
que levaram de mim
que armas usaram

porque seca a minha boca, diz
porque tenho pavor de sonhar
porque vivo de emoção
porque digo sempre não
e vibro com as ondas do mar...

que levaram de mim
com que sorrisos me enganaram
que levaram de mim
que engenhos usaram?

terça-feira, 12 de agosto de 2008

Vontade de ti


Segurei os teus dedos
e disse : "não sei porque me perco
em cada montanha, o teu olhar"

tenho vontade de ti
do tom açucarado da tua pele
dos meus cabelos carmesin
caídos por terra
tenho vontade de ti
sentir a tua, a minha boca
nuvens roçando o horizonte...

tenho vontade de desvendar
o que os teus olhos murmuram e escrevem
escutar o que fica nos espaços das letras
o silêncio...
Tenho vontade de sentir a polpa
da tua alma presa em mim
vontade de rasgar
o verde oceanico do teu sonhar
tenho vontade de ti
aninhado no meu peito
mãos tombadas sobre o chão
tenho vontade de ti
de mim
do que seremos...

segurei os teus dedos
num misto de alegria e tristeza
segurei a medo
planicies e planicies de incerteza
povoavam a minha mente
mentiras coloridas doces
que me fazem ter vontade de ti...

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

Noites





insónias. noites de afronta e solidão
insónias. pesadas como chumbo
mãos mortas povoando o mundo

e a lua! observa-me
e a lua! esconde
cemitérios de palavras
proferidas pela polpa da tua boca


não imaginas. o sol caí...
fica o livro que nao leste
o filme que não viste
a foto onde não estiveste presente

não imagina. a noite caí...
a falta que me faz





quarta-feira, 30 de julho de 2008

Esperança


Sinto cada célula a desagregar
o corpo a fraquejar
será paixão. ou medo
todo o que chega as minhas mãos não me pertence
meu espírito hesitante
teme o futuro expectante
tortura-se com o passado
com as memória, previsões antecipadas
impulsos que tentam me estrangular
impulso que tentam me envenenar
impulsos que me dominam
que aterrorizam a minha existencia...
Sinto pouco mais que uma gota de suor
pouco mais que uma lagrima
e o pouco depressa se transforma em nada...

sexta-feira, 25 de julho de 2008

Habitas em mim

habitas em mim. na longitude da minha pele
na ternura do meu olhar, como se fosse milenar
o calor dos teus dedos
a sensação perfeita, cadencia de cada nota

habitas em mim.eu vejo-te e perco-me
os teus olhos são luas um
céu onde correm palavras
existe sempre, no meu corpo, a memória do ontem
o sabor do amanhã

habitas em mim. esqueci o meu nome
sou vento agrestre, palavra proferida
por ti são os instantes da vida

Hoje


hoje, quando senti a ondulação do mar,aguarrei os cabelos
sonhos desfeitos na iris do teu olhar
naquele espaço infinito
teu rosto adormecido
palavras flutuantes
cristalizam os sentidos
onde cada toque era unico
cada som, cada gesto
céus silenciosos se erguiam
por entre a minha voz suave, melancolica
debroçada no teu peito
num suave doce jeito
perdi-me na loucura da tua boca...

quarta-feira, 9 de julho de 2008

bolor


O bolor dos dias vagos
das horas adormecidas
corre pelas veias...em agonia
paredes lúgubres
manchadas de cólera
de secreções amareladas
onde crescem fungos
nas janelas
Sinto na pele
organismos estranhos
líquidiz turva e espessa
compressas de tortura
cobrem as feridas que não saram
os dias que não passam
as nauseas estonteantes
corredores húmidos
cadeiras bambas...
sobre chão decomposto...
Por entre os cheiros a enfermidade
todos os momentos felizes
se esvaem da imaginação
num estado tão frágil
o mundo perde-se na minha mão...

quarta-feira, 2 de julho de 2008

Momento


Na suavidade do teu dorso
senti a essência da loucura
na tactidez da tua pele
na abstracçao de cada linha
nossas bocas feitas de mel
naquele instante que as unia

Por entre os dedos esticados
o sabor da lua
uma luz meiga soturna
reclinada sobre o teu peito
num leve doce jeito
de cabelos tombados
como cachos de uva...

poderia ser como um pássaro
a sombra do teu enlaço
poderia ve-la a voar
a luz do teu olhar
poderaia ser apenas um sonho
ou penumbra dum abandono
poderias ser tanta coisa
coisa imensa coisa minha
certamente seria menos enfadonho
que esta estúpida teimosia

segunda-feira, 5 de maio de 2008

Quase perfeito


I

Havia um trilho estreito
onde o mar escoava
no canto da tua boca
havia uma luz leve, soturna
diluida na iris do teu olhar
havia uma praia deserta
onde o céu gelado se esquivava
pela curvatura dos teus ombros,devagar

II

O vento sussurrava
Nossas sombras enevoadas
no instante em que as unia

Cada momento ecoava
na leveza do meu vestido

E...

Nao me lembro de mais nada
Nem consigo imaginar
sei que foi tua
por um breve momento

deixei-me levar...

quarta-feira, 9 de abril de 2008

Liquidez


Vento, não me diz nada
De costas para o sol
Nossas sombras misturadas

É surpreendente
A maneira como abraças
Com medo que as palavras manchem
O significado de cada suspiro
Na liquides das horas
Um imenso vazio
Sinto a polpa da boca
A fluidez do olhar
Ancoradas as tuas mãos
No meu corpo, devagar…

Sonho

Queres me perceber?
Por favor, não me faças rir
Sou o vento
Que por ti passa a fugir
Sou a polpa da maça
O desejo latente de possuir
Uma leviana paixão

O mundo, nada é
Aos pés do mistério
Encarnado em mim
Queres-me? Só para ti
A ganância turva-te a vista
A quem diga que não exista
Mas tu sabes o que respiras
O perfume da minha fantasia

Queres me perceber?
Por favor, não o faças
Sou natural de mais
Simples de mais
E é na simplicidade
Que se encontra o complicado
Ciclicamente
Todo o que souberes
Retomará novo significado…

quarta-feira, 12 de março de 2008

"O Humano demasiadamente Humano"


sou um viajante
ponto de chegada
sou um viajante
errante, sem estrada

nao me prendo a coisa alguma
nao há tempo
a vida, toda ela, um momento
desce a noite sobre o deserto
até a aurora
tudo me parece uma leve demora
na descontinuidade
sou um viajante
onde os montes lançam-se
a meu encontro
onde as coisas que eram minhas
simplismente nao são
pois eu sou um viajante
noutras frentes
vejo a calma duma colheita
espíritos livres
veem a meu encontro
tudo desaparece
e o caminho esbate
nascida a luz
sou um viajante
da "filosofia do meio dia"
feita ela de brisa
fluidez que me seduz

Uma onda! Aqui e ali...
A minha mão sobreposta
Na tua mão
Asa de gaivota

As nuvens roçavam o rosto
Leviana paixão
Minha perna descoberta
A boca semi-aberta

Sabes? A relva dá-me comichão...

Uma onda! Aqui e ali...
Uma gaivota
Na minha mão
Encostada no teu peito
A planar
fluidez da íris do teu olhar...

quinta-feira, 6 de março de 2008

És mentira


No dramatismo encenado
de cada gesto.
No desfecho coreografado
de cada momento.
Na esfera ilusória
do tempo vejo-te,
absolutamente fulminante.

Serás tu, talvez,
aquilo que o olho percebe
apenas a aparência
que não transcreve
o verdadeiro significado do ser

Nem o gestualismo da teu vulto
a tinta que escorre
na enlouquecia do tumulto
subordina o inconsciente.

Serás tu, talvez, hipocrisia
criadora de delírios
fingidora de emoção
mentiras que não
valem a pena existir,
e as quais tu
chamas de paixão...

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

Se

Se eu esperasse na espera do desespero
e quisesse como quem quer o último momento
se eu fosse o folgo brando da vitória
e compreendesse o verdadeiro significado
do enlace dos teus olhos nos meus.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

A ti voltarei


A ti voltarei, sim eu bem sei,
que tentar esquecer é asneira
que nada
se compara a uma vida inteira
que é impossível dizer adeus!