domingo, 31 de agosto de 2008

Recantos


Recantos de minha mente,
repositórios de doses viciantes
de lembranças fulminantes
amarfanhado de corpos e suores...

Vejo na sombra do vento
os farrapos poeirentos da tua memória
uma dor singular e ávida de ti
escorre-me por entre mãos atadas...
e a voz inaudível...do teu silêncio
raspa com um canivete
as tábuas do meu caixão...

Neste convento de trevas
apagam-se as velas
que queimaram até ao fim.
os olhos fecham-se em trêmula agonia
por ente a obscuridade
das seivas que se mesclam
no puro prazer de violar.

Tua pele branca. polpa de framboesa
firmamento e lua. estranha beleza
repleta de falsos pudores. cada sorriso
preso no espartilho. o teu seio amoroso...

Mas tudo isto é ilusório. pura fabricação
aqui não existem fronteiras
sou ser da noite, em desalinho e aflito
feito apenas para sugar
a medula ossea do teu olhar...

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

Meia-noite. a lua pujante me avista
o relógio marca com hipocrisia
meia-noite de qualquer dia
sentada á beira desta estrada
como um parasita
contra a luz que me alumia
contra o ser que me habita

Beijo a Matéria triunfante
por entre a bruxuleanta sentença
de ser filha do Pecado mais repugnante
duma Eva sedutora, provocante
e dum Adão feito Besta

Tenho na boca o trago a sangue
da ferida que procuro e não acho
meus olhos exaustos expectantes
vislumbram a glória negra
duma cidade desertica
fluxo universal da cratéra

Ergo-me do buraco de Dante
caminho a pé. sem destino
galgando ao sabor do vento
como um demónio que caí repentino
nas portas dum convento
a minha alma morta
na volúpia da noite
ouve o jorro soluçante
dum rasgo de luz
que levemente escorre
à beira dum percepício


Meu corpo cinzelado
no mámore ou no ébano
segue a miragem. trilhos secretos
acesa a chama
protejo-a com a cova da mão
acesa a chama
da servidão
Dai-me Senhor da escuridão
o descanço eterno
entre os resplendores da luz perpétua
ja dormo na morte
o interminável sono
ilusão duma vida eterna...

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

Violeta de Parma




Sou um vegeto das ruínas
o meu ser
sente o mastigar de cada hora
por entre o céu descoberto
o anoitecer

Vermes rastejam
fogem de mim com asco
bebo o absinto
das lápides murmurantes
dos ciprestes que tornam em silêncio
o lirismo impuro
os sentimentos tépidos
de cada segundo...

Sou filha dum tédio, duma dor qualquer
por entre sonhos horrivelmente histéricos
jardins fantasmagóricos
e obsessões...

Os resquícios de minh'alma
evaporam como fumaça
e nos meus lábios aflora a tísica
roxa e inefável melancolia...

Sou transparência de morte, magreza hirta.
por entre a palidez clorótica,
desta noite de afronta e solidão
e nos conventos abandonados de minh'alma
sou brilho cru, agudo e febril
sugando os cansaços mornos de uma vida
leve bater de asas de cotovia...

Sobre o vazio, sobre o nada
sou desdenhosa ilusão da eternidade
minha boca acidentada
por entre os dedos esticados
e manchas de realidade.

Sou corpo cadavérico
deixado ao acaso
Sou gravação vaporosa
violeta de Parma
flor dolente e venenosa
Já sinto emurchecer na alma
as pétalas de um sonho...

já eu não sou! ...na cova escura...
já eu não sou!...defunta




( Este poema bebe das palavras de José Duro, mas especificamente do seu poema "Doente", uma longa confissão de amargura e desespero de um jovem a beira da morte.)

Esses olhos ofuscantes
onde poisam borboletas
lacrimosas superficies
de estranha beleza .

Longiquos silêncios
se despredem
no ardume da pele
todo o tempo do mundo .
aos olhos de quem ama
parece tão breve, tão fugaz...
para veres a paixão
que em mim habita
fecha os olhos murmurantes
na obscuridade da cada momento
fecha os olhos em segredo
sente os dedos remexendo
na terra da tua cova
sente as tábuas do caixão
ou as soturnas precês
que se esvaem como fumuça
da minha mão...

terça-feira, 19 de agosto de 2008

Quero-te


Nem te despediste de mim
nem me disseste sim ou não
mastigo cada silêncio da tua indeferença
sinto o palpitar do coração
atrás da porta, um murmurar
persegues-me em câmara lenta
em cada esquina o teu olhar
e a tensão aumenta...
neste espaço vazio e esfumaçado
perdi-me nos trilhos da minha alma
numa alucinação cega e descompassada
segurei os teus dedos, feitos de nada
fixei os teus olhos, pontos no escuro
deixei-me sufocar pela ãnsia do meu querer
lancei-me no obscuro...
deixei-me morrer...

Anjo Negro


Quando me olhavas voraz
havia um cemitério de crianças
no teu olhar!
Uma tristeza tão profunda
brotava na foz d'alma
vi, nos campos tétricos
das tuas alucinações
cada hora preenchida
por lírios palpitantes
aguarelas que davam-me
a emoção do olhar e do sentir
tinhas uma espécie de dever
o dever de sonhar
de sonhar sempre, tinhas esse dever
de nunca acordar...

Mas por detrás
da máscara que usavas
um rosto inerte ou expectante
conspirava...

manchas de sangue
cobriam-te os pés

por entre lembranças ocas
momentos cristalizados
no filamento das nossas bocas

pensei que eras poema
linha horizontal
deslizando na curvatura
dos lençois amontoados
cabelos tombados
flutuante lua
mas apenas povoaste
as entranhas do meu imaginário
sugando-me a carne
numa procura hedonística
de saciedade
triunfo da tua vaidade

segunda-feira, 18 de agosto de 2008


em busca dum beijo, tacteei
aquele circulo de árvores
o brando respirar da natureza

desenhou-se um sorriso
na curvatura do teu olhar
um suspiro...cai
por entre os ramos
fio de luz... devagar

ficou o abraço preso
palavras esvoançando
ficou o cheiro molhado das encostas
o leve roçar dos teus dedos
no interior dos meus ombros
e no meio dum silêncio imenso
ficou o esboço da minha sombra
ternura secreta açucarada
da tua boca

domingo, 17 de agosto de 2008


porque choram os meu olhos,
diz-me amor, devagar...
porque tenho medo de acordar
porque vivo de ilusão
porque me entrego à paixão
porque vibro assim, com o luar!

que levaram de mim
com que palavras me enganaram
que levaram de mim
que armas usaram

porque seca a minha boca, diz
porque tenho pavor de sonhar
porque vivo de emoção
porque digo sempre não
e vibro com as ondas do mar...

que levaram de mim
com que sorrisos me enganaram
que levaram de mim
que engenhos usaram?

terça-feira, 12 de agosto de 2008

Vontade de ti


Segurei os teus dedos
e disse : "não sei porque me perco
em cada montanha, o teu olhar"

tenho vontade de ti
do tom açucarado da tua pele
dos meus cabelos carmesin
caídos por terra
tenho vontade de ti
sentir a tua, a minha boca
nuvens roçando o horizonte...

tenho vontade de desvendar
o que os teus olhos murmuram e escrevem
escutar o que fica nos espaços das letras
o silêncio...
Tenho vontade de sentir a polpa
da tua alma presa em mim
vontade de rasgar
o verde oceanico do teu sonhar
tenho vontade de ti
aninhado no meu peito
mãos tombadas sobre o chão
tenho vontade de ti
de mim
do que seremos...

segurei os teus dedos
num misto de alegria e tristeza
segurei a medo
planicies e planicies de incerteza
povoavam a minha mente
mentiras coloridas doces
que me fazem ter vontade de ti...

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

Noites





insónias. noites de afronta e solidão
insónias. pesadas como chumbo
mãos mortas povoando o mundo

e a lua! observa-me
e a lua! esconde
cemitérios de palavras
proferidas pela polpa da tua boca


não imaginas. o sol caí...
fica o livro que nao leste
o filme que não viste
a foto onde não estiveste presente

não imagina. a noite caí...
a falta que me faz