segunda-feira, 29 de setembro de 2008




Trago no fado desta noite
a curvatura dos teus ombros, intemporais
perdi-me em terrenos de luz e sal
perdi-me no infinito segundo
da tua mão na minha.
Nuvens, nao havia,
apenas uma noite profunda
sem estrelas nem lua
minha pele derretida
como cera em tuas mãos
minha alma nua
por um momento, meu
olhar apagado indulgente
tecendo melancolia...
trago no pensamento esta noite
a voz muda inocente
um cheiro inusitado
de conchas e mar
perdi-me, talvez, nem sei
no verde oceanico do teu olhar
a luz que derramava dos candeeiros
preenchia os vazios da espuma solta
ao longe o som dum búzio escondido
voava tal como o vento
por entre nossas bocas murmurantes
voava por entre as ruas que a cidade tem
gentileza dos meus cabelos
trago na saudade deste poema
a louca fantasia
de ser alma da tua alma, até ser dia
o amor passado que a boca sentiu e calou
já eu os vivi, o tempo selou
lembranças que me trespassam como punhais
lembranças que me fazem sorrir
das cinzas negras até ao pó
são só lembranças... apenas...lembranças...
onde so faltou eu, senhora de mim.


quarta-feira, 24 de setembro de 2008


Tenho um cansaço imenso
das coisas que não são minhas
e aquelas que me pertencem
tenho-as cansadas, a deriva
talvez não seja cansaço
apenas uma especie de desilusão
que se entranha por debaixo da pele
que mastiga os dias que passam
às avessas, passam, depois caem no abismo
das palavras que ficam por dizer
ou daquelas que não deviam ter sido ditas
estou tão cansada de te ver, de ser mendiga
do teu mal querer...
cansada, dum cansaço maior e vertiginoso
cansada como um touro enraivecido
que cai por terra vencido
estou cansada do mundo
e do que ele contém,
múltiplas formas distintas
de cópias identicamente estúpidas
de tédio rastejante de tédio repugnante
cansada...



( este poema bebe do cansaço de Álvaro de Campos)

domingo, 21 de setembro de 2008

buzios e corais

naquela praia pacifica e nua
vi astros diluidos na lua
serenata de conchas vaporosas
vi teu rosto de anjo adormecido
por entre as dunas
da minha carne branca exposta

naquela noite de bruma
teu olhar era verde, azul e espuma
era frágil encantamento
ah! se algum dia o destino
souber nos falar
das ondas que fazem o mar
esculpidas nos teus cabelos
se algum dia souber desfazer
a candura daquele anoitecer
nuvens roçando como novelos

e por entre a sombra crua
dum beijo morno, esquecido
meu olhar diamante, perdido
nas encostas do teu dorso
nas entrenhas dum pesadelo
animal selvagem, monstruoso

a noite era fria até gelar
era volúpia obscura
era...
gaivotas fugindo, horizonte
de teus ombros intemporais
branços abertos, musica, vento
sussuros e medos verticais
povoando o pensamento
era...
noite de abandono
boca de sal e fel
tattuada, ferro e fogo na pele
cão uivando sem dono
numa praia pacifica e nua
vi meus sonhos pesados como rochas
vi granadas de miséria
réstias duma vida sobreposta
às pegadas da tua indeferença
a incerteza da tua presença
ou simplesmente ausência duma resposta...

sexta-feira, 19 de setembro de 2008


Come o meu medo,
vil segredo da tua delinquência.
Come a massa viscosa que me cobre
carcaça bolorenta.

Bóiam farrapos da vida,
que uma vez fui...

Vejo-te diante de mim
com o riso e soluço de chacal.
Vejo-te a mastigar
o coração atado junto ao peito.
Não tem cor nem forma
este mal que me escarnece e degrada
de ser carne da tua carne
fortuna desgraçada
de ser escrava cativa
da tua eloquência
alma da tua alma vampiresa.

E depois do sol se pôr,
os meus pensamentos são um exercito
de abutres que rodopiam
na cavidade torácica da tua existência.

Garras em lava que a vítima vigia
garras em lava agarrando a inerte vida.
Devastação secreta do teu bico afiado
como uma navalha talhando
a carne branca e macia.

Sugas-me até aos ossos,
sou apenas pele morta.
Os olhos ja sem viço
num silêncio de pasmo
nesta luta ingrata cada tentativa falhada
atormenta minha mente exposta.

Os vermes que brotam e crescem invisíveis
que comem o meu medo,
comem o sofrimento
de nada restar de mim,
de nada restar do que fui
nem do que um dia seremos...

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

Gueixa descarnada



Havia um cemitério de pianos
que tocavam só para ti
na fatalidade desta existência
como o vento nas areias

Cada acorde atemorizava
teus olhos espectros de água
tua boca de gueixa.
tinhas os membros pendentes
como estalactites
nas mãos o nó cego, apertado
dum vil obscuro passado...

Quebrou-se o gelo das colinas,
ímpia, cruel e culpada,
tua pele ensanguentada
luz trémula de lamparina.

A noite corria vagarosa
agitados teus cabelos perto do abismo.
teu vestido rubro e poeirento,
que rodava fora da vista,
tacteou... por entre o arvoredo
as rochas e o escremento
tacteou... por entre a vida.

Tinhas feridas expostas, mas não sentias
os dedos eram carne pisada, e tu morrias
no fim da colina um cheiro
a incenso ou velas de altar
falsos choros de clemencias
por entre flores putrefatas
rezas de beatas, cadeiras bambas e bolorentas

E nisto...
um vazio. o nada
na polpa da boca descarnada
no vestido branco de seda...

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

Navalha


Havia mosquitos infernais
em tuas olheiras
lágrimas teatrais
rompiam as veias
quero lá saber que morras
por mim podes morrer
dava tudo para te ver sofrer

no calor da navalha
o sangue escorre
uivam cães nas colinas
e uma estúpida neblina tenta me esconder
mas eu estou aqui. Não me ves?
sinto os teus pés sangretos
os lábios rasgados e poeirentos
sinto-te a esvanecer
estou aqui para gravar
o teu nome junto à minha lápide

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

Tu

Naquela tarde. lembro-me
como gentil dormias por entre o arvoredo
minha mão sobre o teu peito
cabelos desalinhados. janela.vento.

No ar o cheiro agreste do sol
montanhas e montanhas
se abatiam sobre nós

E o tempo corria vagaroso
em teus braços de alecrim...

livre

Para onde vou nada existe
sou livre para onde vou
como um pássaro. livre
mas se me ponho a pensar
por mais de um momento
aflora em mim o cruel sentimento
de ser apenas triste

Terei esquecido. talvez
de mim no cemitério da vida

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

Mundo

Sobre as campas dos soldados mortos
o musgo trepa. solidão
um turbilhão de espectros arrastam-se
por entre as manchas esfumaçadas
que cobrem os ciprestes
ouvem-se gritos. ricochetes de balas
ouvem-se gemidos. gumes de facas

O século é grande. tanto quanto a miséria
o homem triunfante. preso nos labirintos da matéria
caí o suor dos esfomeados
caí o sangue dos leprosos
caí por terra os condenados

caí...caí...caí!

Por entre bombardeamentos
uma voz, um soluço
o desejo de querer sempre mais
caí corpo infiel
caí pedaços de pele
caí regime bolorento
caí alma ao sabor do vento

E sobre a macabra mesa. jantar divino
a Tua cabeça...
E sobre o colchão inerte. corpo enrugado
o espírito pobre amaldiçoado
nos seios virgens duma promessa
em nome duma fé
em nome dum deus qualquer
em nome do progresso
em meu, em teu nome
a devastaçao
aqui, além, mais longe.


Minhas veias sussurantes
arcadas inquietas, presas numa mão...
sei que morri dentro de meu peito
sinto-me. inerte entre os vivos
na superficie da esfera
onde bichos se confudem
com os Filhos eleitos.




segunda-feira, 8 de setembro de 2008

Doentio


Tenho a impressão, de que ainda me tocas
com o fluxo intemporal dos teus dedos.
O vinho que adormece os cabelos
fez do teu templo minha boca.

Num silêncio a preto e branco
tinhas o pescoço enforcado nas minhas pernas
por entre paredes cansadas
o bafejar da chuva que não seca
o contorno árduo e subtil
dos teus ombros ancorados na almofada

Sinto-te entranhado em mim
meu ventre cru e nu
como um crepúsculo. escapa do teu olhar
ouiço uma voz arrastada e sussurante
por entre o crivo das horas vagas
os pensamentos ficam perdidos
navio em mar de bruma
navio em chamas

Minha alegria culposa,
irmã duma orgia estranha
dobra-se no colchão onde ficou a saudade
o tormento de tanta espera
no teu rosto adormecido
a solidão. o arrependimento.

Tenho a impressão de que ainda me tocas
não podendo evitar as nódoas negras
as palavras de desdém, a cinza dos momentos
o cheiro da cerveja, do limão e da erva seca
não houve pássaros nem flores
em teus braços:
não houve curvas, nem papel, nem versos
apenas a minha pele com vestigios duma raiva
a minha pele com queimaduras de cigarros
a minha boca espumante de medo
o meu corpo jogando sem alento
o meu ser em derradeiro sofrimento...

As memórias não as posso apagar
não as quero esquecer
sentam-se comigo a mesa
veem-me a beber o cálice envenado do teu amor.

quinta-feira, 4 de setembro de 2008




Arrasto esta carcassa desfigurada
circulo pelo Funchal. cidade morta
com os ossos que nunca vi. carne solitária
o sangue ainda corre. numa dor surda
um bando de abutres sobrevoava
meus olhos reluzentes
em cada esquina uma mensagem tua
em cada prédio a sombra da tua voz
em cada rua o cheiro do teu corpo
persegue-me em camara lenta....

Alguém uiva no cimo da escada
cada degrau me derruba
no corrimão desta estrada
surge ao longe um olhar
cão da morte. dentes em lava
Arrasto meus pés sangrentos
cabelos ao tumulto do vento
lábios gretados e poeirentos
vejo-te nos lampiões destas ruelas
embriagado de luz
vejo-te debruçado nas janelas
jogando facas
vejo-te como uma traça
girando em torno duma lâmpada
penso que és sol. vida eterna...

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

Sóror saudade

Irmã sóror saudade
leva-me para ti
nesta noite voluptuosa
de desdém e fome.
Perdida por entre planicies
de cinza e cal
teus olhos murmurantes
postos em mim
como se avistassem um estranho
entre os abrolhos
duma existência vaporosa.

Irma sóror saudade
eis me moribunda
na amplitude desta floresta
eis me vagabunda
meu dorso escamoso epilético
por entre os cavalos negros de minh'alma.

Irmã sóror saudade
parece que sofro do meu mal
um mal onde habita
o meu corpo rasgado
em pleno delito,
leves lençois de gelo
em comunhão com os céus!

Como a Noite, Irmã,é luar
como o luar são cabelos ao vento
e os sorrisos cadavéricos o meu alento

Ó bendita Irmã de minh'alma
abençoa-me agora e para sempre
pois só tu me conheces intimamente
pois já nem eu sei quem sou
nem onde me perdi!

terça-feira, 2 de setembro de 2008

Fingir

Finjo que estou bem
o corpo ensaguentado. vestido a rigor
manchas amareladas. feridas decompostas
berros descontrolados . por entre sorrisos

finjo que estou bem
olhas-me mas não sabes
por entre as ruelas. uma cidade
ninguém sabe. as mãos trémulas e friorentas
as pessoas são tão desprezíveis
hipócritas e sínicas
falam mas não imaginam
sou vidro. não veem
estilhaços de mim...

olhas-me e não sabes
dentes em lavas. num desatino
finjo que estou bem
o corpo embrabece
a boca emudece
fica a necessidade de saber
será hoje o fim...