Doentio


Tenho a impressão, de que ainda me tocas
com o fluxo intemporal dos teus dedos.
O vinho que adormece os cabelos
fez do teu templo minha boca.

Num silêncio a preto e branco
tinhas o pescoço enforcado nas minhas pernas
por entre paredes cansadas
o bafejar da chuva que não seca
o contorno árduo e subtil
dos teus ombros ancorados na almofada

Sinto-te entranhado em mim
meu ventre cru e nu
como um crepúsculo. escapa do teu olhar
ouiço uma voz arrastada e sussurante
por entre o crivo das horas vagas
os pensamentos ficam perdidos
navio em mar de bruma
navio em chamas

Minha alegria culposa,
irmã duma orgia estranha
dobra-se no colchão onde ficou a saudade
o tormento de tanta espera
no teu rosto adormecido
a solidão. o arrependimento.

Tenho a impressão de que ainda me tocas
não podendo evitar as nódoas negras
as palavras de desdém, a cinza dos momentos
o cheiro da cerveja, do limão e da erva seca
não houve pássaros nem flores
em teus braços:
não houve curvas, nem papel, nem versos
apenas a minha pele com vestigios duma raiva
a minha pele com queimaduras de cigarros
a minha boca espumante de medo
o meu corpo jogando sem alento
o meu ser em derradeiro sofrimento...

As memórias não as posso apagar
não as quero esquecer
sentam-se comigo a mesa
veem-me a beber o cálice envenado do teu amor.

Comentários

Natália Bonito disse…
Há memórias que se fazem memória
Na raiva estarrecida
De um veneno feito história
Que na cama estendida
Sente a noite exploratória.

Bárbara, este poema é mesmo "Doentio" tamanha é a dimensão descrita nas suas entrelinhas... Os meus Parabéns e continua... Eu cá estarei para ler a firmação da tua poética...

Natália Bonito

http://www.estradasrepletas.blogspot.com/
Susana B. disse…
Boa tarde, Bárbara.
segue o link para o meu blog. Tenho lá uma surpresa para ti.
Um beijinho.
Susana.
Unknown Artist disse…
Há amores que fazem bem recordar,
outros que nos arrepiam a pele,
nos amedrontam os sonhos,
nos tocam onde parecia dormitar a dor!

Beijinho
Olá Bárbara
Soube de si através do blogue da Susana B.
Comentar o seu trabalho? Não me atreveria. A melhor recensão crítica já foi o presentinho da Susana! Parabéns.
Abraço. António
Voltei a ler o seu poema e - não sei porquê - veio-me à lembrança este:
Fomos pendurados
Cabeça para baixo
À beira do abismo
Procurámos a morte
No pavio de uma vela
Andámos à procura
Duma coisa qualquer
Que já nos encontrou
(Jim Morrison)
Bj. António

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