domingo, 26 de outubro de 2008


o corpo deitado ao acaso
debaixo da clarabóia do pensamento
o céu cinzento imóvel
congelava a boca do tempo
monstros de cimento
abatiam-se sobre mim
como mãos que esmagam flores
dentes em lava rasgando
o algodão doce. a tua memória

há questões que não valem a pena
as horas debruçadas
em respostas vagas que se amontoam
em vãos de escadas

não há voz, nem registo,
no último som da melodia incerta
dos prédios que caem
sobre as nossas cabeças

notasse como expressão. um grito
que estrabaça das muralhas obscuras. solidão
notasse a testa franzida
os lábios gretados e poeirentos. trémulas mãos
perdidas no esquecimento. ruelas duma sensação

cada regresso tardio é uma fuga aguda
embriagues nocturna, raio de chuva
carne da minha timidez

agora sangram os portoes de ferro
que se abrem até ao céu
paredes de cal e miséria
deste quarto, doce quimera
arrumo a bagagem. penso nos teus olhos nos meus
sigo viagem...num último adeus...

sexta-feira, 24 de outubro de 2008


vegeto. nesta cadeira morbida preta
nesta sala de enfermidade extrema
vegeto. olhando paredes que caem
sobre os dias que se abatem
nas sombras perdidas que contemplo

no castelo assombrado da minha fantasia
sou restos daquilo que foi certo dia
impaciente solta-se o vento
na espessura sombria. os meus cabelos
nas promessas presas. olhos de cristal

esvoaçam a rir.a bruma do desalento
mistura-se o sal. espuma dum momento
enquanto relembro. a tua boca na minha
num silencio obtuso. em labririntos de cor
o tempo dos desejos cessou
em teu olhar penetrante.de castigo
o mundo finou.

vegeto. neste espaço bolorento
gemidos dum soalho antigo.
livros empilhados na jaula.os sentimentos
relembro num tic-tac infernal. lento...lento...
o tempo ilusão dum destino
o tempo um momento
poeta cuja a alma pensa e sente
lânguida e sem gula. a procura da vida
sem pressa de a viver. perdidamente

lancei minha alma num desatino
cruzei braços. esperei. boca fixa no horizonte
numa guerra em que lutei
e onde não pode vencer a sede
louca... louca... de te ter...

domingo, 19 de outubro de 2008


Corro pelas ruas desta cidade
meço degraus. trepo muralhas
não encontro nada. a raíz do passo
caminha na raíz da vida
passo a passo,mil metros quadrados
exposto ao desalento. mãos cravadas como farpas
por entre fios de cabelos. o vento

ouiço-te a dizer adeus
essa palavra que fez da noite madrugada
não sei de que cor é a tua boca
lembro-me da língua subitamente solta
pelas ruas. pelos becos.
como uma onda rebentando de mistérios
em teus olhos ficticios. animais.

Vegeto pelos escrombos
aqui não há viv'alma
são becos decadentes. extermínio
onde a carne fez-se verso
um verso livre. sem palavras. nem sentido
debaixos das pedras havia sorrisos
havia esperança. em meus olhos de criança
em teu rosto de anjo adormecido.
já não há.

E o silêncio é tudo o que resta
para quem nada têm.

domingo, 12 de outubro de 2008


"quem dorme à noite comigo"
é minha dor, o meu castigo!

O medo perfura-me os instestinos
mora comigo,mas só a ansiedade
embala-me num balanço de tristeza.

"quem dorme à noite comigo"
na podridão dum silêncio que fala
é minha expectante alma.

Num tic-tac infernal, num desatino
o tempo da vida preso na minha mão
o tempo da carne, um destino.

" Quem dorme à noite comigo"
o meu amaldiçoado segredo.

Junto do caixão
emudece-me o peito.
A solidão
grita tentando salvar-me
dos vermes que brotam do chão
dos lírios que crescem na margem
dum sono ligeiro junto ao coração.

" Quem dorme à noite comigo"
é minha tristeza, meu desalinho.

Busco o folgo primeiro
que jorra no rio da tentação
querendo salvar-me desta morte anunciada
deste meu corpo, valendo nada
deste meu eu preso em mim

" Quem dorme à noite comigo"
é meu desassossego, meu desalinho.

Hoje digo, quem dorme a noite comigo
é o medo aninhado em meu ventre pequenino
é o medo, de não estares comigo.

Numa amargura que fala
e cedo me afaga
tuas palavras de ternura e carinho.

terça-feira, 7 de outubro de 2008


Um amor impossível, é sempre um amor impossível, por mais formas que assuma, a verdade será sempre só uma....
Os cavalos não olham para o céu, nem sentem as nuvens, nem sabem o sabor do ar. As gaivotas nunca deixaram de voar. Cada ser é constituído por si próprio, pela sua natureza.
Devia saber que esta vontade de ser tua, seria condenada pelo brilho da lua, seria apagada pela a certeza indubitável, dum amor impossível. Tu és um cavalo bravo, um ser alado, que galga os montes num desatino. Eu sou leve gaivota planando a encosta acidentada por entre o ar azul tenebroso, tentando talvez sobreviver ao tempo chuvoso, aos relâmpagos de Zeus.
Tu não podes ganhar asas e tentar voar mais alto, como eu, meu amor. Nem eu posso, caminhar sem ter horizonte, por penhascos negros e agrestes planícies .. somos de diferentes matrizes. Somos habitantes da mesma esfera. Somos infelizes.
Meu cavalo negro,semeador de morte. Não sei qual o teu nome, nem preciso de te chamar...consigo do alto avistar teu dorso selvagem e delinquente  Talvez isso seja suficiente, só tenho pena que tu caminhes tão cegamente sem nunca o céu olhar.

Jogo


Meu choro de gaivota perdida
bate no vidro da janela
esvai-se por entre
as esquinas desta cidade
perde-se nas ruelas
como o fumo dum cigarro esquecido.

Minha boca seca, dá de beber a dor
o mundo num segundo...

A chuva morre
na curvatura dos meus ombros
alongando a dor,
sob fogo cruzando, lua morta
ou sol distante
vejo-te, sem luz para olhar
abrem-se lembranças, cortinas dum destino
enchem-se de ar, num desatino
as flores murcharam de repente
em meu olhar... enlouquente
rios sem fonte, brilham p'ra ti
E por penhascos negros
desejos vãos, duma boca de mel e cetim
caminham secretos até mim.

Acontece, que neste jogo de sorte e azar
o tempo não volta atrás
o brilho amaldiçoado da lua
levou-te... cavalo de sombra
galgando planicies perdidas
em noites de versos e sons
duma grande sinfonia.

Pelo horizonte de boca liberta
galgaste por entre a areia descoberta
de minh'alma exilada, neste convento de solidão
de minh'alma presa, a uma escrava desilusão
e nunca mais sobe de ti...

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Negra


Eras negra cativa
espaço de deleito e pecado
tua pele santa e tentadora, de mulher.
teu corpo estilhaçado
num colchão de palha tombado
pronto a satisfazer.

Tinhas os olhos cerrados
esses diamantes raros,
nunca mais avistaram a luz.
Tinhas a alma cadavérica,
gritando por piedade
enquanto o pensamento voava
tal e qual uma borboleta
junto ao rio pousava
na tua mão de mãe, de irmã,
de filha, de neta de alguém,
 na tua mão de criança.

Escorriam-te dos olhos as gotas da fobia
suores frios e trémulos, apoderaram-se de ti
tinhas um crucifixo pendente do peito
a boca manchada de sal e fel
enquanto gotas de sangue caiam
das tuas mãos apertadas
da tua boca cerrada
do teu útero de mulher

Vieram do nada, de terras malditas
aqueles seres uivantes, sedentes de desejo
aqueles seres rastejantes, arfando imundície.
esfregando a pele sebosa e dita cristã
roçando testículos cheiro a escremento
ejaculando vermes de desalento
em teu corpo pequenino, em teu corpo indefeso
salivavam nas tuas ancas que nem cães
agarrados a um osso...
puxavam-te os cabelos, arranhavam-te os braços
pendestes no chão...

Teu seio amoroso, rasgado, dentes em lava
teu seio virgem, despedaçado...
olhos semi-cerrados, espumantes de prazer
olhos esbugalhados vertendo delirios
olhos verde água, olhos dum branco...cheio de tesão
olhos dum branco sem escrupulos, nem coração

Sentiste cada movimento, em teu ventre...
cada brutalidade viril dum macho nojento
tinhas as pernas bambas descaidas
tinhas os braços tombados, ja sem vida
morreste antes da navalha te degolar
e o sangue quente jorrar
do teu pescoço de gazela...
morreste... e ninguém estava para velar
a tua morte... ninguém quis saber o teu nome
ninguém sabia quem tu eras...



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