domingo, 16 de novembro de 2008

Passado desmenbrado


Tudo parece-me transcendental
apática, perdida
sem cor a vida, é esfinge cadáverica
movendo esferas, numa valsa teatral

Totalmete imóvel, como um pilar de sal
minha boca permanece
solidificada pela dor dum abandono.

Pés caídos, desmembrados
enquanto ecos de assombro
povoam-me o espírito!

Diz-me que abriras os olhos,
diante de ti a miséria a fome de cada dia.
Já não sinto os cortes
nem as fracturas expostar a dernar
o sangue do sangue dos olhos
que olham nos teus sem nome.

Nas cadeiras bandas, nas esquinas
por entre o piso molhado.
As gotas da fobia
cerradas neste quarto
onde tempo passa sem pressa de partir ao chegar
sem vontade de esquecer o teu rosto
aquilo que faz a lua sonhar.





terça-feira, 11 de novembro de 2008

Lince




Teus olhos de lince
 cámelias meladas ao sol
querem me devorar em meiguice
por debaixo das vertebras dum lençol

Na polpa encarnada da tua boca
aflora um mundo instintivo e animal
e na curvatura do teu sorriso
a luxuria canibal. dentes em lava, num desatino
beijo num folgo brutal
sem pressa de partir ao chegar

Sinto o gelo quente do teu olhar
perdido em planicies e planicies de silêncio
sinto o calor da febre a bafegar
na longitude do teu pescoço
como um cálice envenenado
que me consume até ao osso

E nos batuques do meu peito
teus olhos aguçados e felinos
presos em cada gesto. cada expressão
na fluidez da minha mão. incerta dum destino.

É hoje, talvez, o último dia que vejo
o luar preso na raiz dos pensamentos
cabelos grisalhos que traçam linhas de linhas
água e sal, pescador de momentos

Vejo na suavidade da tua pele
brotar a cor exacta do teu nome,
do teu jeito de andar só pelos caminhos
mastigando emoções. fumado ilusões
rasgando sorrisos...

segunda-feira, 3 de novembro de 2008


No algodão doce daquela tarde
a tua mão derretia
açúcar cristalizado. tua boca na minha

Havia nuvens que flutuavam
em teus ombros horizontes
tal e qual um pássaro planavam
em meus olhos carnais
senti a loucura,
a despir o teu corpo
a tomar a forma dum bafo quente
dum cigarro aceso
senti a loucura a engolir o pensamento

Como dizer o silêncio
do teu peito contra o meu
os gestos que brotavam da foz da alma
alma que não cabia em mim
e que em ti não restava

O vulto do teu rosto diluía-se
nas gotas de chuva que escorriam
do para brisas do carro que corria
sem pressa de chegar

Não havia luar, apenas nós
e os lampiões que não podiam esconder
o desejo de te ter.

Nas paredes do vento ficou
aquele momento. sobre grande neblina
nem tudo o que veio chegou por acaso
na penumbra dos cabelo enrolados
mãos tombadas sobre o céu
lábios que suspiram um adeus...