domingo, 25 de dezembro de 2016

Pedaços



Chegará o dia, em que todos os pedaços de mim morrerão,
delicadamente, por entre as ondas da maresia
e o vento passará por entre os fios uivando em agonia.

A minha maior angústia é saber  que apenas amei
o sonho que sonhei, vagarosamente o tempo transforma-se em angústia
como um cavalo preto perdido por entre a bruma, incerteza.

Chegará o dia,  em que tudo aquilo que criei
prontamente desaparecerá
e novamente os gritos desesperados
da esperança consumiram o incenso das horas mortas.

Olhas perplexo, milhares de pedaços de mim
desfeitos, como pó de estrelas voam, voam...
para lá do horizonte. 

domingo, 25 de setembro de 2016

ébano

A tua pele castanha
na ponta dos meus dedos
que curva entre o infinito
o improvável e o desassossego.

Tu na tua forma mais perfeita
de ser, a tua boca soturna e meiga
em cada entardecer
junto ao mar, aquele mesmo mar
que antes nos separava
e que hoje unidos vislumbramos.

Vieste de tão longe de outro oceano
roubaste a minha alma
num sopro doce e brando
ébano exuberante, olhos castanhos
de pura sedução, só tu consegues
deslindar os fios do meu pensamento.





domingo, 24 de abril de 2016

Respirar

Tento respeitar a minha franqueza
por um segundo,
Tento aceitar a tristeza maior
o gosto límpido do orvalho da manhã
o sossego, a paz, o silêncio
breve como a vida.
Depressa inundo-me e renego
o meu ser, a minha alma
volto a adormecer
pois só no sono mais profundo
sou quem quero ser.

quinta-feira, 31 de março de 2016

Algas

Um dia, quando o vento correr
acordado até aos teus braços
o verde será demasiado profundo
e a areia demasiado espessa...

Nem o principio de um palavra
será necessária para delinear
a densidade do teu abraço...

No ar preso devagar
emerge o teu sorriso oceânico.
Aqui, o tempo não existe
no instante dos teus dedos
o dia pleno e limpo.

Esta é a madrugada
Em que junto ao cais espero
atravessar a espuma luminosa
e livres galgaremos o rumor das algas...

quarta-feira, 23 de março de 2016

O futuro

Algum dia fui aquilo que hoje vagamente me lembro
só depois de amanhã saberei o que pensar depois da amanhã
Mas hoje não! Não posso pensar
nas mil camadas de sal que cobrem a minha pele.
Criança assustada num canto
Choramingando a morte de um pássaro qualquer
Carregando nos braços o gato Romeu
Por entre, o ar lúgubre de um quarto no topo da casa
um esconderijo, um sótão, pintando a cor-de-rosa...

Hoje não quero pensar. No salto que a vida deu
No tempo que passei sonhando, quando anos de vida?
Acordei criança e adormeci mentida
Na incerteza da dor sempre a mais triste
O desejo de reviver o passado,
As saudades do futuro, esse mito absurdo.
O amanhã não existe. Não no agora, não!
Apenas saberei isso amanhã. Essa é a certeza única.